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quinta-feira, 3 de julho de 2008

AFINIDADE



A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos.
O mais independente. Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido. Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial.Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.
Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavra. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.
Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado. Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.
Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.
Só entra em relação rica e saudável com o outro, quem aceita para poder questionar. Não sei se sou claro: quem aceita para poder questionar, não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é. E, aceitando-o, aí sim, pode questionar, até duramente, se for o caso. Isso é afinidade. Mas o habitual é vermos alguém questionar porque não aceita o outro como ele é. Por isso, aliás, questiona. Questionamento de afins, eis a (in)fluência. Questionamento de não afins, eis a guerra.
A afinidade não precisa do amor. Pode existir com ou sem ele. Independente dele. A quilômetros de distância. Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar. Há afinidade por pessoas a quem apenas vemos passar, por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos. Há afinidade com pessoas de outros continentes a quem nunca vemos, veremos ou falaremos.
Quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem para buscar sintomas com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, com amores latentes, com irmãos do não vivido?
A afinidade é singular, discreta e independente, porque não precisa do tempo para existir. Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu o vínculo da afinidade! No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação exatamente do ponto em que parou. Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as tem.
Por prescindir do tempo e ser a ele superior, a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente. Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós, para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.
Sensível é a afinidade. É exigente, apenas de que as pessoas evoluam parecido. Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau, porque o que define a afinidade é a sua existência também depois.
Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo ou amado, e anos depois encontra com saudade ou alegria, mas percebe que não vai conseguir restituir o clima afetivo de antes, é alguém com quem a afinidade foi temporária. E afinidade real não é temporária. É supratemporal. Nada mais doloroso que contemplar afinidade morta, ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade. A pessoa mudou, transformou-se por outros meios. A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas, plantios de resultado diverso.
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças, é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, quantos das impossibilidades vividas.
Afinidade é retomar a relação do ponto em que parou, sem lamentar o tempo da separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado.
(Arthur da Távola)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

ATRITE-SE!


Atritos
Roberto Crema
- Predidente da Unipaz –
Colégio Internacional dos Terapeutas

Ninguém muda ninguém.
Ninguém muda sozinho.
Nós mudamos no encontro.
Simples, mas profundo, preciso.
É nos relacionamentos que nos transformamos.
Somos transformados a partir dos encontros desde que estejamos abertos e livres para sermos impactados pela idéia e o sentimento do outro.
Você já viu a diferença que existe entre as pedras que estão na nascente de um rio e as pedras que estão em sua foz?
As pedras na nascente são toscas, pontiagudas, cheias de arestas. À medida que elas vão sendo carregadas pelo rio, sofrendo a ação da água e se atritando com as outras pedras ao longo de muitos anos, elas vão sendo polidas, desgastadas.
Assim também agem nossos contatos humanos.
Sem eles a vida seria monótona, árida.
A observação mais importante é constatar que não existem sentimentos bons ou ruins sem a existência do outro, sem o seu contato.
Passar pela Vida sem se permitir um relacionamento próximo com o outro é não crescer, não evoluir, não se transformar.
É começar e terminar a existência com uma forma tosca, pontiaguda, amorfa.
Quando olho para trás vejo que hoje carrego em meu ser várias marcas de pessoas extremamente importantes. Pessoas que, no contato com elas me permitiram ir dando forma ao que sou, eliminando arestas, transformando-me em alguém melhor, mais suave, mais harmônico, mais integrado.
Outras, sem dúvida, com suas ações e palavras me criaram novas arestas que precisam ser desbastadas.
Faz parte...
Revezes momentâneos servem para o crescimento.
A isso chamamos experiência.
Penso que existe algo mais profundo ainda, nessa análise.
Começamos a jornada da vida como grandes pedras cheias de excessos.
Os seres de grande valor percebem que ao final da vida foram perdendo todos os excessos que formavam suas arestas, se aproximando cada vez mais de sua essência e ficando cada vez menores, menores, menores...
Quando finalmente aceitamos que somos pequenos, ínfimos, dada a compreensão da existência e importância do outro, e principalmente da grandeza de Deus, é que nos tornamos grandes em valor.
Já viu o tamanho do diamante polido, lapidado?
Sabemos quanto se tira de excesso para chegar no seu âmago.
É lá que está o verdadeiro valor...
Pois Deus fez a cada um de nós com um âmago muito forte e muito parecido com o diamante bruto, constituído de muitos elementos, mas essencialmente de Amor.
Deus deu, a cada um de nós, a capacidade de amar... Mas temos que aprender como. Para chegarmos a esse âmago, temos que nos permitir, através dos relacionamentos, ir lapidando todos os excessos que nos impedem de usá-lo, de fazê-lo brilhar.
Por muito tempo em minha vida acreditei que amar significava evitar sentimentos ruins.
Não entendia que ser ferir e ser ferido, ter e provocar raiva, ignorar e ser ignorado faz parte da construção do aprendizado do amor.
Não compreendia que se aprende a amar sentindo todos estes sentimentos contraditórios e ... os superando.
Ora, esses sentimentos simplesmente não ocorrem se não houver envolvimento...
E envolvimento gera atrito.
Minha palavra final: Atrite-se! Não existe outra forma de descobrir o Amor. E sem ele a Vida não tem significado!

domingo, 1 de junho de 2008

Psicologia da vivência

A LIÇÃO DO PORCO ESPINHO


Há muitos anos, durante um inverno extremamente rigoroso os animais da floresta sofreram muito. A morte percorreu todas as espécies, não havia alimento, nem calor que pudesse garantir a sobrevivência.
As formigas, previdentes, encolheram-se em seus formigueiros bem providos e permaneceram no calor da terra.
Mas nem todos são formigas e têm outras atividades a exercer determinadas pelo Criador. Na verdade, este inverno era um teste que Ele desafiava os animais a vencerem suas barreiras e condicionamentos para, dessa forma evoluírem na escala da Criação.
As espécies compreenderam que se ficassem bem juntinhos, esquecendo as diferenças, desavenças, se aqueceriam.
Os enormes elefantes pousaram as trombas uns em cima dos outros e deixaram que sua reserva de gordura e calor aquecesse a todos. Mesmo não sendo pais de sangue, permitiram que os filhotes se protegessem sob seus corpos. Ficaram eles, quentinhos numa cabana de elefantes.
De vez em quando algum dava um "pum", no início foi difícil, com o tempo, compreenderam que chegava a sua hora de emitir o ruído de desagradável odor e passaram a rir de si mesmos quando acontecia.
Os ursos, encavernados, ainda assim aprenderam a dormir fazendo uns aos outros de travesseiro e os pequenos dormiam em cima de todos, de braços e pernas espalhados, com um sorriso nos sonhos.
Até as cobras se enrodilharam e quase não se distingui o que era rabo e o que era cabeça.
Assim, todos foram partilhando e sendo salvos pela troca e aceitação.
Foi um grande difícil e frutuoso inverno.
Quem mais teve dificuldades foram os porcos-espinhos. Sua composição dificultava a proximidade. Feriam-se com os espinhos dos outros e, muitas vezes nem conseguiam dormir com a dor provocada.
Espinhundo, um porquinho invocado e impaciente, muito cheio de si porque tivera a oportunidade de cursar a universidade da floresta, irritava-se com a situação. Desferia golpes, eriçava ainda mais seus espinhos e feria mais profundamente. Os outros foram se afastando e Espinhundo foi sentindo cada vez mais frio.
Certo dia, quando o vento sul cortava até mesmo as árvores, Espinoso, sem querer, espetou a orelha já ferida do companheiro. Com um grande urro, Espinhudo chutou o amiguinho e saiu a trote do abrigo de troncos caídos que lhes servia de refúgio.
A neve começou a cair branqueando o campo já queimado pela geada. Espinhudo, emburrado, resmungando baixo sobre a pouca visão de seus parentes em não lhe dar o lugar mais confortável.
Imagina – pensava ele - para mim que sou o mais esperto! O que estão pensando? Ficam falando em solidariedade e me deixam de fora. Não volto mais!
Os pensamentos foram embaciando com o frio e os olhos se fecharam sem que ele não percebesse. Assim foi encontrado pela noite: encolhido e enregelado.
Os outros porcos-espinhos espiavam de longe e chamavam, sem, no entanto terem coragem de desafiar a intempérie e ir buscá-lo. Temiam seu humor instável e muitas vezes cruel. As chacotas que fazia. Agrupavam-se e se beneficiavam do calor uns dos outros, doía um pouco porque quando ficamos perto demais sempre alguma coisa nos ferirá, faz parte do desconhecimento que temos de nós mesmos.
Espinoso também observava o amiguinho e se penalizava. Instou todos a irem buscar o coitado tirando-o do frio que o mataria.
-Vamos juntos – dizia - ainda estaremos quentes e poderemos salvá-lo.
- Não, foi escolha dele, agora que agüente, eu não me arriscarei a adoecer pelo teimoso e prepotente.
O porquinho se encolheu mais e ficou coçando uma feridinha que começava a cicatrizar. Ela se abriu e o sangue correu. Junto com a dor veio a consciência de que podemos estar no meio de todos, protegido, mas senão fizermos o que acreditamos, ainda assim nos machucaremos. Uma lágrima rolou, lembrando-se das tardes quentes em que todos podiam brincar numa distância que os protegia dos ferimentos.
- Engraçado, ainda assim, brincando juntos, no bom tempo eu não me lembro de ter conhecido bem o Espinhudo. Tinha tanto medo de me machucar! Ele era bem engraçadinho, muito falante e contava piadas. Até um dia que caiu num buraco, quebrou alguns espinhos e nunca mais foi o mesmo.
Isso fazia tanto tempo que Espinoso nem conseguia lembrar direito, só via a imagem de Espinhudo ferido e humilhado por alguns que riam de sua desgraça. O pai do porquinho ficou zangado porque agora seria sempre visto como o porco dos espinhos quebrados e isso mexia com a vaidade que tinha por sua prole. Deu-lhe deu uma grande surra e depois o mandou à faculdade. Se estudasse compensaria o aleijume.
Ao terminar a lembrança, Espinoso deu um salto e correu para fora da toca. Os companheiros se horrorizaram:
- Vais morrer, volta! Volta.
- Prefiro morrer com meu amigo a viver pensando que nada fiz para salvá-lo. Morrerei em paz e olharei sem vergonha o deus dos porcos espinhos quando o encontrar.
Alcançou Espinhudo que mal respirava, esfregou-se nele, rolou por sobre seu corpo e bafejou no seu focinho. Houve machucados sim, de ambas as partes, mas o desmaiado abriu os olhos de onde corriam lágrimas e sorriu. Deram-se as mãos e em seguida se abraçaram. Assim apoiados um no outro, bem devagar, voltaram ao aconchego do grupo.
Imediatamente todos se afastaram um pouco para que eles pudessem alcançar o centro onde o calor era maior. Batiam palmas e se deram conta que o movimento os aquecia. Dançaram e saltitaram abraçados.
A primavera naquele ano, também foi fora do comum, chegou de repente com um céu azul onde os raios de sol desenhavam riscos de luz quente.
Foram todos saindo de seus abrigos. Houve uma grande reunião na clareira, onde todas as espécies contaram suas experiências diferentes. Era cobra conversando com sapo, carneiro com lobo e aranha com mosca.
O rei Leôncio pediu silêncio e muito compenetrado declarou feriado florestal. Terminou com um discurso:
- Este foi o pior inverno que passamos nesta floresta: nosso lar, mas foi também o mais rico porque aprendemos a conviver com as pequenas feridas de uma relação muito próxima. Pode causar dor, mas é muito mais importante do que morrer na solidão gelada. A dificuldade pode unir em vez de separar.
- Agora, para comemorar a alegria da primavera, está aberto o baile!
- Hakuna Matata!!