A LIÇÃO DO PORCO ESPINHO
Há muitos anos, durante um inverno extremamente rigoroso os animais da floresta sofreram muito. A morte percorreu todas as espécies, não havia alimento, nem calor que pudesse garantir a sobrevivência.
As formigas, previdentes, encolheram-se em seus formigueiros bem providos e permaneceram no calor da terra.
Mas nem todos são formigas e têm outras atividades a exercer determinadas pelo Criador. Na verdade, este inverno era um teste que Ele desafiava os animais a vencerem suas barreiras e condicionamentos para, dessa forma evoluírem na escala da Criação.
As espécies compreenderam que se ficassem bem juntinhos, esquecendo as diferenças, desavenças, se aqueceriam.
Os enormes elefantes pousaram as trombas uns em cima dos outros e deixaram que sua reserva de gordura e calor aquecesse a todos. Mesmo não sendo pais de sangue, permitiram que os filhotes se protegessem sob seus corpos. Ficaram eles, quentinhos numa cabana de elefantes.
De vez em quando algum dava um "pum", no início foi difícil, com o tempo, compreenderam que chegava a sua hora de emitir o ruído de desagradável odor e passaram a rir de si mesmos quando acontecia.
Os ursos, encavernados, ainda assim aprenderam a dormir fazendo uns aos outros de travesseiro e os pequenos dormiam em cima de todos, de braços e pernas espalhados, com um sorriso nos sonhos.
Até as cobras se enrodilharam e quase não se distingui o que era rabo e o que era cabeça.
Assim, todos foram partilhando e sendo salvos pela troca e aceitação.
Foi um grande difícil e frutuoso inverno.
Quem mais teve dificuldades foram os porcos-espinhos. Sua composição dificultava a proximidade. Feriam-se com os espinhos dos outros e, muitas vezes nem conseguiam dormir com a dor provocada.
Espinhundo, um porquinho invocado e impaciente, muito cheio de si porque tivera a oportunidade de cursar a universidade da floresta, irritava-se com a situação. Desferia golpes, eriçava ainda mais seus espinhos e feria mais profundamente. Os outros foram se afastando e Espinhundo foi sentindo cada vez mais frio.
Certo dia, quando o vento sul cortava até mesmo as árvores, Espinoso, sem querer, espetou a orelha já ferida do companheiro. Com um grande urro, Espinhudo chutou o amiguinho e saiu a trote do abrigo de troncos caídos que lhes servia de refúgio.
A neve começou a cair branqueando o campo já queimado pela geada. Espinhudo, emburrado, resmungando baixo sobre a pouca visão de seus parentes em não lhe dar o lugar mais confortável.
Imagina – pensava ele - para mim que sou o mais esperto! O que estão pensando? Ficam falando em solidariedade e me deixam de fora. Não volto mais!
Os pensamentos foram embaciando com o frio e os olhos se fecharam sem que ele não percebesse. Assim foi encontrado pela noite: encolhido e enregelado.
Os outros porcos-espinhos espiavam de longe e chamavam, sem, no entanto terem coragem de desafiar a intempérie e ir buscá-lo. Temiam seu humor instável e muitas vezes cruel. As chacotas que fazia. Agrupavam-se e se beneficiavam do calor uns dos outros, doía um pouco porque quando ficamos perto demais sempre alguma coisa nos ferirá, faz parte do desconhecimento que temos de nós mesmos.
Espinoso também observava o amiguinho e se penalizava. Instou todos a irem buscar o coitado tirando-o do frio que o mataria.
-Vamos juntos – dizia - ainda estaremos quentes e poderemos salvá-lo.
- Não, foi escolha dele, agora que agüente, eu não me arriscarei a adoecer pelo teimoso e prepotente.
O porquinho se encolheu mais e ficou coçando uma feridinha que começava a cicatrizar. Ela se abriu e o sangue correu. Junto com a dor veio a consciência de que podemos estar no meio de todos, protegido, mas senão fizermos o que acreditamos, ainda assim nos machucaremos. Uma lágrima rolou, lembrando-se das tardes quentes em que todos podiam brincar numa distância que os protegia dos ferimentos.
- Engraçado, ainda assim, brincando juntos, no bom tempo eu não me lembro de ter conhecido bem o Espinhudo. Tinha tanto medo de me machucar! Ele era bem engraçadinho, muito falante e contava piadas. Até um dia que caiu num buraco, quebrou alguns espinhos e nunca mais foi o mesmo.
Isso fazia tanto tempo que Espinoso nem conseguia lembrar direito, só via a imagem de Espinhudo ferido e humilhado por alguns que riam de sua desgraça. O pai do porquinho ficou zangado porque agora seria sempre visto como o porco dos espinhos quebrados e isso mexia com a vaidade que tinha por sua prole. Deu-lhe deu uma grande surra e depois o mandou à faculdade. Se estudasse compensaria o aleijume.
Ao terminar a lembrança, Espinoso deu um salto e correu para fora da toca. Os companheiros se horrorizaram:
- Vais morrer, volta! Volta.
- Prefiro morrer com meu amigo a viver pensando que nada fiz para salvá-lo. Morrerei em paz e olharei sem vergonha o deus dos porcos espinhos quando o encontrar.
Alcançou Espinhudo que mal respirava, esfregou-se nele, rolou por sobre seu corpo e bafejou no seu focinho. Houve machucados sim, de ambas as partes, mas o desmaiado abriu os olhos de onde corriam lágrimas e sorriu. Deram-se as mãos e em seguida se abraçaram. Assim apoiados um no outro, bem devagar, voltaram ao aconchego do grupo.
Imediatamente todos se afastaram um pouco para que eles pudessem alcançar o centro onde o calor era maior. Batiam palmas e se deram conta que o movimento os aquecia. Dançaram e saltitaram abraçados.
A primavera naquele ano, também foi fora do comum, chegou de repente com um céu azul onde os raios de sol desenhavam riscos de luz quente.
Foram todos saindo de seus abrigos. Houve uma grande reunião na clareira, onde todas as espécies contaram suas experiências diferentes. Era cobra conversando com sapo, carneiro com lobo e aranha com mosca.
O rei Leôncio pediu silêncio e muito compenetrado declarou feriado florestal. Terminou com um discurso:
- Este foi o pior inverno que passamos nesta floresta: nosso lar, mas foi também o mais rico porque aprendemos a conviver com as pequenas feridas de uma relação muito próxima. Pode causar dor, mas é muito mais importante do que morrer na solidão gelada. A dificuldade pode unir em vez de separar.
- Agora, para comemorar a alegria da primavera, está aberto o baile!
- Hakuna Matata!!
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