sábado, 18 de setembro de 2010

Postado por Adriana Pereira

Nos capítulos 3 e 4 Foucault aborda o tema da internação como uma forma de eliminar, colocar a margem da sociedade aqueles que não correspondem as normas sociais, usando um discurso de “organização”, ignorando os “associais” em nome de uma “ética” que divide a razão e o desatinio ; o bem e o mal. Nesse contexto vale lembrar Freud no seu trabalho O mal estar da civilização, que encontrei num artigo da internet e fiz alguns recortes que achei interessante para complementar o assunto. Se alguém se interessar pode ler o artigo na integra

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O BODE EXPIATÓRIO

Publicado por Patricia em 7/5/09 (251 leituras)

José Del-Fraro Filho
Psiquiatra, Psicanalista
jose@patriciaejosedelfraro.com.br

Alguns recortes

No seu livro o mal estar da civilização, Freud levanta a questão do Super Ego cultural dizendo que este promove uma ética que regula os relacionamentos humanos e que tenta barrar a agressividade inerente a todo sujeito, substituindo-a por culpa. Para Freud a agressividade desse gesto da internação poderia passar despercebida, na medida em que usavam como pretexto o discurso de que era preciso aprisionar os que não amavam racionalmente. Em nome da sociedade e em nome do amor. Todo esse mecanismo em jogo ainda traria a vantagem de projetar no outro, os desejos, que agora dão contorno somente ao rosto do desatinado, se vendo livres de reconhecerem em si mesmos o mesmo rosto.

Depois usando os conceitos de Marilena Chauí na construção do fenômeno ideologia o artigo diz que A ideologia é o instrumento possível para a dominação das classes. se esta dominação for percebida, os explorados se sentirão no direito de recusa-la. Por isso seu papel é impedir isso, dissimulando e ocultando essa divisão social para esconder sua própria origem. Para isso transforma as idéias particulares de classe dominante em idéias universais válidas para todos.

A universalidade dessas idéias é abstrata, pois existem idéias particulares de cada classe, que faz com que enxerguemos somente a imediatez de uma realidade como algo dado, feito acabado, sem nunca nos indagarmos como foi construída.

Essa classe dominada se revolta com as injustiças sociais, com o desequilíbrio assolador visto em todos os níveis e sentidos na pele, mas consegue no máximo preceber pessoas que estão em nome dessa dominação como os políticos populistas e/ou pseudo-socialistas, mas não percebem que continuam presas nas artimanhas ideológicas. Presa por certos significantes universais já difundidos pela classe dominante.

Essas idéias que colocavam o homem clássico como o dono e o escravo da Razão, deparados de pessoas que a fabricaram, tiveram como uma dos resultados A Grande Internação que correspondeu não só como conseqüência delas, mas como sua própria confirmação e auto-afirmação.

O mundo correlacional funcionava não só como um remédio aos males do coração, mas como um remédio ao conferir pragmatismo à ideologia vigente, na medida em que se pode colocar em prática esse conjunto de idéias . Os “insanos” se, por um ângulo, eram vistos como “veneno” de uma sociedade burguesa e sua ideologia – veneno que podia corroer as estruturas sociais por outro lado, eram os “remédios” com o qual se encontrava alívio, pois com eles se colocava em pratica o estabelecido ideologicamente, fortalecendo-o.

E nos nossos dias?

A atuação de alguns setores do sistema de saúde e de alguns médicos não se presta como remédio só ao sofrimento mental, mas como eterno paliativo para não alcançarmos avanços, na medida em que são coniventes com a ideologia que se iniciou séculos atrás.
Não vemos introjetados os mesmos preconceitos daquela época, onde no gesto da internação se ocultava num gesto de agressividade incomensurável, de culpabilização (bode expiatório) e de pragmatismo de uma ideologia emergente?
Até onde o susto, o espanto de se deparar com a “loucura do Outro”, aguçando em maior ou menor intensidade nossos conflitos e com isso angústia, nos impede de prosseguir, desbravar novos caminhos?
Até que ponto utilizando-se de sutilezas, que não deixa de ser um excelente ingrediente ideológico, ainda não estamos mergulhados em certas práticas daqueles longínquos séculos, onde num certo dia os corações e a liberdade se viram aprisionados nas redes ideológicas?
Nos nossos dias é muito comum “chavões” do tipo:
. “Saúde um direito para todos...”
. “A internação, em certos casos, é a única saída...”
. “Dignidade ao doente mental, ao trabalho médico...”
Frases de efeito que atuam no imaginário do sujeito carente de soluções, frases formuladas pelos dominantes e utilizadas como mero instrumento ideológico. Em nome de alguma coisa que nunca se encontra com o bem-estar social. Avalanche ideológica que nos arrasta cada vez mais à alienação. Alienação esta, que certamente não se confunde com a alienação do Doente mental, mas talvez bem mais daninha. Impregnados por ela, não se pode mais traçar a linha de um rosto diferenciado. Algo da ordem de uma massificação, de uma “coisificação”, se configura numa única imagem: a do rosto-escravo, a do rosto-objeto, sem liberdade, sem cidadania, “parafuso dispensável numa sociedade tecnocrata. (ClariceLispector).”
E é interessante um aspecto que surge através desse comentário: O dito alienado mental, talvez, seja o único livre dessa mesma alienação, na medida em que se refugiando no mundo inconsciente é preso de suas próprias leis, não mais podendo ser analisado como o sujeito que compartilha os códigos de uma dada cultura, que colocaria este indivíduo em condições à rebeldia ou como elemento mantenedor da resignação, fruto último e mais nocivo da ideologia e da alienação. A alienação pode conduzir à morte do sujeito social.
E por fim quero apontar, mais uma vez, o risco que corre a Psiquiatria em nossos dias: ser colaboradora do processo ideológico quem mata o sujeito social transformando-o em objeto social: “Ideologia é um conjunto de idéias, de valores e condutas que prescrevem aos membros da sociedade o que se deve pensar, fazer, sentir, valorizar. Ela prescreve, normaliza, regula, dando aos membros da sociedade dividida por classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes a partir da divisão na esfera da produção”. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as diferenças como a de classes, de oferecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos como, por exemplo, a Humanidade, Igualdade, Fraternidade, a Nação, a Família... Nascida por causa da luta de classe e da luta de classes, a Ideologia é um corpo teórico (religioso, filosófico, científico) que não pode pensar realmente a luta de classe que lhe deu origem. Por isso nunca diz tudo... Correria o risco de se arrebentar por dentro...
A Ciência pode se prestar ao serviço ideológico e muito... mas pode dizer e não dizer muito mais...
Se o psiquiatra em sua prática encarna o tempo todo e não questiona o chamado “Discurso de Mestre”, onde imaginariamente ocupa o lugar do saber absoluto, não estaria ele sendo, ao mesmo tempo, lacaio de sua própria onipotência e de armações ideológicas mascaradas com o respeitado rótulo de científicas?
E num último viés, o fato da Psiquiatria Biológica ter alcançado grandes avanços, pode servir, por exemplo, como faca de dois gumes: propicia avanços científicos, mas se tomada isoladamente pode ser terreno propício ao enraizamento ideológico. Pode cair num positivismo que tente justificar a miséria psíquica e social, passando por cima de um conjunto de complexos fatores, servindo como campo para práticas inadequadas e retrógradas. Pode servir como alimento a preconceitos e medidas punitivas destinadas às minorias discriminadas desde a Era Clássica. Neste caso, além da enorme contribuição, à manutenção ideológica e morte do sujeito social estaríamos colocando em risco a própria Psiquiatria, enquanto ciência que se presta a aliviar ou no mínimo não compactuar com o sofrimento humano. Aí nesse ponto, a Psiquiatria e o seu louco serviriam de remédio... De remédio a qualquer ameaça de mudança e reestruturação que se fizessem esboçar...

No cap. 4, na pág. 134, Foucault, nos coloca o conceito tão estranho da alienação psicológica, acorrentando sempre o outro em relação a sua liberdade. O louco, todos que naquele momento histórico gritam contra o controle e repressão, o que o racionalismo autorizou entre o castigo e o remédio de acordo com o cap. 3 na pág. 87, o gesto que pune e o gesto que cura.

Hoje ainda temos em nossa sociedade castigos e remédios, quando, por exemplo, além da palmada tão discutida hoje em dia contra a criança, aquela que não tem como se defender, a palmada psicológica que castiga, que sugere o medo, a coerção. Dogmas e rotulações feitas que restringem a capacidade da análise e reflexão, colocados de tal forma que inibem o ser pensante de pensar. E que tal os hiper-reativos em vez dos hiper-ativos?

Quem deixa quem louco? Luis Antônio Baptista, em seu texto “A atriz, o padre e a psicanalista – os amoladores de facas” nos diz:

“O fio da faca que esquarteja, ou o tiro certeiro nos olhos, possui alguns aliados, agentes sem rostos que preparam o solo para esses sinistros atos. Sem cara ou personalidade, podem ser encontrados em discursos, textos, falas, modos de viver, modos de pensar que circulam entre famílias, jornalistas, prefeitos, artistas, padres, psicanalistas, etc. Destituídos de aparente crueldade, tais aliados amolam a faca e enfraquecem a vítima, reduzindo-a a pobre coitado, cúmplice do ato, carente de cuidado, fraco e estranho a nós, estranho a uma condição humana plenamente viva.”

A falta de algo, um laço partido, isso leva as pessoas a sala de terapia seja ela qual for, a uma religião ou a qualquer outra situação que a faça procurar esse depender.

Vejo que toda a dependência é a falta de algo, um desejo que não é satisfeito, onde o sujeito busca suprir, Freud diria que é sublimar, direciona o desejo para outra coisa. mas a questão é a falta de que? Pulsão de vida, pulsão de morte? Mas essa falta parece-nos a falta de alguém, já que o homem é um ser social e precisa constantemente estar sendo exaltado, isto é se sentir alguém e não um ninguém, precisa ser em vez de ter, num universo tão complexo, e a falta desse ser e estar como potência, como um ser reconhecido que muitas vezes é ressachado pelo outro, o outro que depende, que o leva a condições muitas vezes patológicas ou poderíamos dizer nos dias de hoje ´´normais``, porque poucos são os enaltecidos. Esses seriam os anormais, gozando de toda condição de superioridade, de ter o tão desejado valor, e então procurar o ter em vez do ser.

Daí as doenças da dependência. Dependências não satisfeitas, dor que invade a alma, a falta, que precisa ser preenchida de diversas formas, e assim substituída por diversas maneiras que preenchem essas brechas para o não pensar, e se não preencher entra num sistema de insatisfação, levando as tristezas dessa falta, que já não mais reconhece.

Mas e se tiver tudo isso suprido, o homem consegue ir em frente?Ou se acomoda de todas as lutas, Então esse é o excitamento a que o homem é levado em busca de suas escolhas e de seus projetos? È necessário? Qual seria a dose?

E porque adoece? Não acha mais projeto, não tem mais excitamento, nada mais lhe é interessante? E quando isso acontece? Seria o não ser notado, desvalorizado, a falta?

Pichon concebe o vínculo como uma estrutura dinâmica em contínuo movimento, que engloba tanto o sujeito como o objeto e afirma que esta estrutura dinâmica apresenta características consideradas normais e alterações interpretadas como patológicas. Considera um vínculo normal àquele que se estabelece entre o sujeito e um objeto quando ambos têm possibilidades de fazer uma escolha livre de um objeto, como resultado de uma boa diferenciação entre ambos.

E nenhum paciente apresenta um tipo único de vínculo: todas as relações de objeto e todas as relações estabelecidas com o mundo são mistas. Existe uma divisão que é mais ou menos universal, no sentido de que por um lado se estabelecem relações de um tipo, e por outro, de um tipo diverso. ( Pichon-riviére, 1991) sendo assim, uma pessoa pode estabelecer um vínculo paranóico por um lado, e por outro um vínculo normal ou ainda um vínculo tendendo à hipocondria, isso porque as relações que o sujeito estabelece com o mundo são variadas, bem como as estruturas vinculares que utiliza.

De Certeau no discurso do homem ordinário, nos fala das caças não autorizadas a que o homem recorre num ir e vir no seu cotidiano e este esta movido pelo excitamento do querer e do ser no sobreviver usando de táticas que me reporta a Derrida nos colocando diante do advém, desconstruindo lógicas intruncadas posicionadas que estão além do bem e do mal, fazendo-nos refletir que justiça é diferente de direito, e o bicho homem movido por um desejo de ser estará confrontando para deixar de ser um apenas cada um , levando o homem na representação diária dos papéis, trazendo o olhar de Foucault diante da loucura que nos atrela a realidade pragmática e dogmática da punição social que coloca os sujeitos num devido lugar para conforto de alguns, sempre substituindo os momentos de um a outro, na necessidade complexa do penalizar alguém.

E como tudo depende, depende da cultura, depende do momento, depende de quem e de como, e assim a loucura também depende. E fica aqui a pergunta depende de que?